Em uma decisão que expõe o desgaste internacional e a blindagem institucional do Judiciário brasileiro, a Justiça Federal dos Estados Unidos autorizou que o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), seja citado formalmente por e-mail. A medida drástica foi tomada por um tribunal federal da Flórida após meses de tentativas frustradas de notificar o magistrado pelos canais diplomáticos tradicionais. O procedimento destrava uma ação movida pela plataforma Rumble e pela Trump Media & Technology Group (responsável pela rede Truth Social), que acusam Moraes de censura transfronteiriça e de violação direta das leis americanas de liberdade de expressão.
O bloqueio burocrático e a decisão da Flórida
O processo, que se arrastava nos bastidores internacionais desde o início de 2025, expõe o tamanho do embate global sobre os limites do poder de Alexandre de Moraes. Ao analisar o caso, a corte norte-americana concluiu que o sistema de cooperação jurídica via Convenção da Haia tornou-se “politizado e efetivamente indisponível” no Brasil para este caso específico.
A constatação sugere que os canais oficiais e a burocracia do State operaram para blindar o ministro, evitando que ele respondesse aos questionamentos legais no exterior. Diante do impasse que já durava 457 dias, o juiz aceitou os e-mails institucionais do STF e do gabinete de Moraes como meios válidos de contato, fundamentando que um dos endereços eletrônicos já havia sido utilizado anteriormente para comunicações com a própria Rumble.
As gigantes de tecnologia acionaram a justiça americana para invalidar a eficácia de ordens judiciais brasileiras em solo americano. Elas contestam determinações secretas de remoção e suspensão de perfis de influenciadores e usuários de direita — como o jornalista Allan dos Santos —, além de multas diárias abusivas. As autoras sustentam que a conduta do magistrado configura uma extrapolação de fronteiras digitais e um ataque direto à Primeira Emenda da Constituição dos EUA, que protege a liberdade de expressão de empresas sediadas em território americano. Embora a Trump Media não tenha sido alvo direto das sanções, a companhia comprovou depender da infraestrutura tecnológica da Rumble para manter a Truth Social operacional.
Precedente internacional e o risco de revelia
Defensores da soberania jurídica brasileira e interlocutores do Supremo Tribunal Federal minimizam o peso da decisão, sob o argumento de que ordens de tribunais estrangeiros não possuem jurisdição automática sobre autoridades nacionais no exercício de suas funções constitucionais. No entanto, juristas independentes e defensores dos direitos digitais alertam que a decisão da Flórida estabelece um precedente altamente constrangedor.
A medida isola os métodos punitivos do STF dos padrões ocidentais de devido processo legal. O advogado que representa as empresas, Martin De Luca, celebrou o despacho nas redes sociais, reforçando que o STF foi obrigado a ver suas táticas de bloqueios sumários e notificações sigilosas serem confrontadas pela exigência de transparência e ampla defesa asseguradas pela lei americana.
Com a citação eletrônica considerada válida e os e-mails disparados, Alexandre de Moraes tem agora o prazo de 21 dias para apresentar sua defesa formal à Justiça Federal norte-americana. Caso o ministro opte por ignorar a ordem e não responder às acusações — uma estratégia provável para evitar a legitimação de uma corte estrangeira —, as empresas Rumble e Trump Media poderão solicitar o julgamento à revelia.
Se o processo seguir sem a manifestação do réu, o tribunal da Flórida julgará apenas com base nos argumentos dos autores. O desfecho pode resultar na declaração de total ilegalidade e inexequibilidade das ordens do STF em solo americano, proibindo corporações como a Apple e o Google de cumprirem os bloqueios de aplicativos exigidos por Moraes, além de aprofundar severamente o isolamento jurídico e as tensões diplomáticas entre Brasília e Washington.










